Lula reforça estratégia digital no 2º turno para reduzir vantagem de Flávio nas redes

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acelerou mudanças na comunicação digital após o 1º turno, com vídeos mais diretos, mobilização de influenciadores e articulação de congressistas com grande audiência online. O movimento busca reduzir a distância registrada nas redes sociais em relação a Flávio Bolsonaro (PL), que levou o 1º turno com 56.104.268 votos (47,03%) contra 53.876.617 de Lula (45,16%). O 2º turno acontece em 25 de outubro.

Uma regra do TSE muda o jogo digital

O desafio não é apenas de estratégia, mas também regulatório. O artigo 28 da Resolução 23.610/2019 do TSE, com alteração incluída em 2024 pela Resolução 23.732, determina que perfis oficiais informados à Justiça Eleitoral - e os conteúdos publicados por eles - sejam excluídos dos sistemas de recomendação das plataformas, exceto quando há impulsionamento pago. Isso significa que candidatos continuam podendo publicar normalmente e seus seguidores seguem vendo, curtindo e compartilhando o conteúdo. O que muda é a distribuição orgânica para quem ainda não acompanha essas contas, o que eleva o papel de aliados, parlamentares e influenciadores na propagação das mensagens.

A norma vale para toda e qualquer candidatura que tenha formalizado seus perfis à Justiça Eleitoral, incluindo Flávio Bolsonaro. Contas criadas durante o período eleitoral precisam ser comunicadas em até 24 horas, e, em 2026, o TSE passou a exigir que um endereço pré-existente só possa ser incorporado à campanha 48 horas após o aviso formal.

Disparidade de escala entre as redes dos dois campos

Levantamento da Agência Bites, divulgado nesta quarta-feira (7.out.), expõe a diferença de musculatura digital entre os dois grupos políticos: deputados do PL somam 210 milhões de seguidores, contra 72 milhões do PT e aliados. Desde o 1º turno, Flávio ganhou 1,2 milhão de novos seguidores, ante 392 mil de Lula.

Nas interações, o cenário é mais equilibrado em volume total, mas desigual em eficiência: Lula lidera com 7,2 milhões de interações contra 5,8 milhões de Flávio, só que publicou consideravelmente mais. Na média por post, Flávio obteve 448 mil interações, mais de quatro vezes a média de Lula, de 102 mil.

Para Manoel Fernandes, diretor da Bites, a leitura dos números é clara: "Seguidor não é voto, mas ajuda na propagação de percepções sobre os candidatos, tanto na direção negativa quanto na positiva. Numa disputa de três semanas, a capacidade de mobilizar rapidamente uma base pesa; nas métricas apresentadas, a rede em torno de Flávio tem maior escala e engajamento", avaliou. Fernandes considera que o esforço de Lula para reunir políticos com forte presença digital é necessário, mas tardio na campanha.

WhatsApp, influenciadores e "furar a bolha"

A corrida para ampliar alcance passa também por canais de mensageria. O deputado André Janones criou, em 5 de outubro, o canal "Exército de Lula" no WhatsApp, que reuniu quase 2 milhões de seguidores em dois dias, usado para distribuir áudios, vídeos e orientações a apoiadores. A campanha também reuniu parlamentares eleitos com grande alcance digital, caso de Erika Hilton (Psol-SP) e Ana Elisa (PT-MG), para discutir ações conjuntas nas redes.

Na quarta-feira (7.out.), Lula publicou um vídeo em formato selfie, gravado pelo próprio celular, convocando apoiadores para atos de rua - iniciativa que partiu do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). O objetivo é adotar um tom mais direto e pessoal justamente no momento em que a restrição de recomendação reduz o alcance orgânico das contas oficiais entre eleitores ainda não engajados, parte dos 33,5 milhões que não compareceram às urnas no 1º turno.

Fiscalização das plataformas e exposição do eleitor

Nove empresas apresentaram planos de conformidade ao TSE em 2026: Google, Kwai, LinkedIn, Mercado Livre, Meta, OpenAI, Telegram, TikTok e X. Os documentos descrevem como cada plataforma aplica o filtro de recomendação, mas não esclarecem de forma inequívoca se perfis de candidatos cuja disputa terminou no 1º turno continuam sujeitos à restrição no 2º turno - uma lacuna sobre a qual o TSE ainda não respondeu a questionamentos enviados pelo Poder360.

A aplicação da regra também é alvo de fiscalização acadêmica. O NetLab, da UFRJ, publicou nota técnica em 30 de setembro apontando ter identificado cinco recomendações de conteúdo do perfil oficial de Flávio Bolsonaro e duas de Lula no TikTok, em uma amostra de 1.873 recomendações analisadas - o que, segundo o laboratório, sugere falhas pontuais no cumprimento da norma, sem permitir generalizações sobre o comportamento do algoritmo.

Pesquisa Datafolha de setembro mostrou que 57% dos brasileiros haviam visto conteúdo eleitoral nas redes nas semanas anteriores. Entre eleitores de Flávio, 44% tiveram contato com conteúdo via influenciadores, ante 29% entre os de Lula - uma assimetria que ajuda a explicar por que a campanha petista corre, agora, para reequilibrar sua rede de distribuição digital antes do fechamento das urnas em 25 de outubro.